E quem ousa dizer que um show em plena terça-feira não traria um público sedento por um bom heavy metal melódico? Pois é, amigo, você que pensou que se fosse ao Citibank Hall conferir o show do Stratovarius e encontraria a casa vazia, na verdade acabou encontrando um público ensandecido por cada acorde tocado nas rápidas e manjadas músicas do quinteto finlandês que retorna ao Brasil após o lançamento do último disco, Polaris (2009).
A melhor parte de ir a um show do Stratovarius é com certeza o fato de que irá sair de lá surdo o bastante para se lembrar de que é um show de Metal dos bons. Lembro-me perfeitamente do show em 27/08/2005 no Olympia em São Paulo (cujo seria gravação de um DVD que nunca foi devidamente lançado...) onde a superlotação da casa era algo inimaginável e a energia do público tupiniquim simplesmente fantástica! Portanto, segui desta vez ciente do que iria encontrar, mas, além disso, é uma banda provando que ainda tem muito gás para dar em suas músicas.
Além da apresentação da tour do último disco lançado, havia ainda a surpresa pela primeira vez ao vivo do guitarrista que substitui o afável Timo Tolkki, Matias Kupiainen, que deixou claro ter a habilidade suficiente para a performance de todas as músicas do Stratovarius ao vivo, mas ainda não possui o caráter de um músico que está em cima do palco representando uma banda com certa legião de fãs num país como o Brasil, onde o calor dessas apresentações faz cada segundo valer a pena.
O show se iniciou por volta das 21:35hs (estava marcado o início para as 21:30hs, portanto, pontualíssimos!) e, pouco antes, a casa ainda parecia extremamente vazia. Conversando com um dos seguranças, a informação era de menos de 1000 ingressos vendidos na bilheteria do Citibank Hall. Mas, em pouquíssimos minutos, houve uma ligeira invasão de paulistanos (apesar de que andei lendo que tinha uma caravana de Manaus por lá até!) que tomaram todo o espaço da agradável casa de shows. A primeira música apresentada foi Destiny com Jens Johansson (teclados), Jörg Michael (bateria), Lauri Porra (baixo) e Matias Kupiainen (guitarra) já tomando seus devidos lugares no palco.
Em seguida, após a introdução desta longa música, Timo Kotipelto (vocalista) adentra com sua usual performance cheio de gestos à lá Broadway. Uma música com diferentes níveis de agitação e calmaria, seguida por um clássico: Hunting High and Low, uma excelente música que ao vivo sempre funciona bem. Sem muitas delongas com o público, o novo integrante Matias inicia os rápidos acordes de Speed of Light, seguindo os clássicos da banda para detonarem o público. É perceptível, como eu já havia dito que este rapaz toca muito bem. Possui uma técnica parecida com a de Tolkki, a rapidez e a habilidade para discursar o que as músicas do Stratovarius pedem ele com certeza tem, só precisa aprender que agora ele tem de transformar esse desempenho em um show, literalmente. Outro clássico acompanha: The Kiss of Judas, com destaque para os backing vocals de Lauri Porra (!!!) e Matias.
Após uma pausa para Kotipelto trocar umas palavras com os fãs brasileiros, vem uma faixa que eu particularmente adorei ao vivo, em questão: Deep Unknown, faixa de abertura do disco mais recente. A introdução desta música é simplesmente fantástica! E, destaque sem dúvida alguma para a cozinha da banda formada por Lauri, Jörg e Jens; Que trio espetacular!
Kotipelto então anuncia que muitas vezes quando toca para São Paulo, sente-se como se estivesse "A Million Light Years Away", ou, para interpretação livre, "A milhões de anos-luz". Uma boa música, que ficou um tanto quanto chata, particularmente, sem muita empolgação do público. Neste ponto, o set-list da banda está sendo feito com uma base, então não há muita diferenciação para músicas que o público realmente esperaria ver, como a épica Infinity, ou Will the Sun Rise? ou Forever Free.
Sem dúvida, um dos pontos altos do show, foi a interação do grandioso tecladista Jens Johansson com os fãs. O tempo todo apontando, fazendo caras e bocas, caretas para fotos, bebendo sua cerveja (fazendo uma dura escolha entre água ou cerveja, muitas vezes!), ligando e desligando o amplificador atrás de seu teclado... Enfim, um músico completo que, durante seu solo, coloca traços de sua passagem pelo Yngwie Malmsteen's Rising Force, tocando a base da melodia clássica de Adágio de Albioni utilizada na música Icarus Dream Suite Op. 4 de Malmsteen. Em suma, o cara manda muito bem durante todo o concerto. Ao final, antes de iniciar a última música do show (sem nenhuma surpresa, claro!), Jens torna a colocar traços clássicos em seu solo com uma base de Ludwig Von Beethoven e suas sinfonias ao som de um teclado pitoresco e viajante, parecido com o que se utilizava por Rick Wakeman em seus intermináveis solos nos anos 70.
Após o belíssimo concerto solo de Jens, vem outra música do novo álbum, a balada Winter Skies. Fraquinha, por assim dizer. A sequência é formada pela esperada Phoenix e um mini-solo feito por Lauri Porra e Matias, alternando momentos de masturbação guitarrística e distorção máxima no baixo.
Em seu momento "all by myself" no palco, Lauri Porra ciente do que seu sobrenome significa no Brasil (tsc tsc), inicia um belo solo com base em acordes setimados e diminutos da Bossa Nova e um coro que o público aprendeu rapidamente nas pausas dadas pelo baixista: "Que Porra!". Sensacional! Carisma é a palavra forte deste cidadão, que ao final do show, durante os minutos finais de Black Diamond (claro, a surpresa!), pegou sua câmera digital e ficou filmando de tudo um pouco; a música, o público, os músicos e até o "gran finale" da banda que será citado em instantes.
Uma fraca "Forever is Today" vem em seguida sem muita animação (sempre após solos o público dá uma baixada, então normalmente coloca-se uma música para alegrar. Neste caso, a música era fraca. Fato!). Em compensação, a estrondosa e muito bem ensaiada Twilight Symphony vem com ares de clássico para levantar quem estivera mais parado. Sem delongas, Kotipelto emenda um: "Vocês são fantásticos!" (Aliás, tem utilizado das mesmas frases em absolutamente todos os shows, já que em 2005 falava as mesmas coisas... tá na hora de aprender algo novo, Mr. Timo!). Higher we Go demonstra que o disco novo também tem músicas fortes que podem acompanhar uma agitada como Twilight, e anima os fãs também.
Temos então o anúncio de uma música que fala sobre uma águia (Eagle) e coração (Heart). Combinando com a matemática avançada aplicada, temos uma música que vale o ingresso: Eagleheart. Fazendo com que a banda faça aquela usual saída para o retorno ao bis com muita satisfação por parte do público.
Neste retorno, Timo Kotipelto anuncia que naquele fatídico dia, sua avó havia falecido e, portanto, dedicaria àquela próxima música a esta ilustríssima senhorinha. Forever vem com um peso emocional muito grande estampado na voz do sempre animado vocalista. Diga-se de passagem, de uma notória preocupação com os fãs: durante três músicas do show, ele pegava algumas garrafas de água gelada e atirava para o público. Atitude fenomenal! Tal qual ele em momentos de solo nas músicas, abaixar-se e pegar algumas máquinas das pessoas que estavam ali amontoadas na grade e bater fotos dos donos ali de cima do palco. Sem contar que, pediu uma bandeira do Brasil que um fã empunhava o tempo todo ali na frente e colocou sobre a frente da bateria de Jörg. Genial e inovador, diga-se de passagem! Ironias à parte é realmente um frontman de destaque na cena.
Entre alguns "Obrigados", assim mesmo, em português, Timo anuncia que a próxima música no disco inicia com o som de "tic tac, tic tac", acompanhado por seu dedo fazendo como se fosse um relógio. É claro; Father Time vem para agitar e debulhar o público em chamas. Sempre muito bem executada e, nesta linha de perfeição, antes de iniciar a próxima e última música da noite, Timo avisa que terão de aguardar a caixa da bateria do Sr. Jörg ser trocada, o que poderia levar 10 segundos ou 10 minutos, sem muita certeza. Então, explica que ao final do show irão realizar um último feito com o público e pede atenção.
Não é vermelho, não é amarelo, não é branco... É claro, é preto; Black Diamond inicia com a mesma apresentação clichê de sempre, mas que funciona sempre. Uma versão que teve um pequeno solo oitentista de Jens, com traços de um tecladista virtuoso ao mesmo tempo em que consegue ser corretíssimo. Novamente, esta música toma espaço entre os fãs mais exaltados que tentam abrir rodas de bate-cabeça, mosh e afins. O interessante é notar que todos gostam dessa música, é unanimidade mesmo entre os fãs! Magicamente executada pelos cinco membros, com destaque para o som muito bom da casa, apesar de em certos momentos estar alto demais e chegar a embolar um pouco o som. Mas sem dúvida, diferenciar o que é baixo, guitarra e teclado estava fácil!
Ao final da música, Kotipelto faz o que na noite da gravação do DVD no Olympia fez antes do final do show; Ensina aos fãs a contagem "1, 2, 3, 4" em finlandês, respectivamente: yksi, kaksi, kolme, neljä. Pedem que seja feita a contagem, devidamente representada em alto e bom som, principalmente após as comparações feitas com o público do Equador, de Belo Horizonte, de Porto Alegre e claro, Rio de Janeiro e Buenos Aires (ambas vaiadas com fervor!).
Stratovarius é uma banda que já possui um nome entre os fãs do Metal no Brasil. Quem conhece e se interessa, costuma gostar. E quem esteve presente neste show, comprovou que é exatamente pelo fato de serem músicos competentes com músicas instigantes que chegaram onde estão e, apesar de terem de provar que seguem na ativa, nada como velhos clássicos para dar um show à parte. Nós agradecemos e, que venham mais e mais shows do Stratovarius pela frente! Parabéns a todos, tanto da banda e produtores quanto o Citibank pela estrutura ímpar.
Texto: Edu The Great
Fotos: Paulo Vitor (PV)
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